quarta-feira, 12 de outubro de 2011

E a família, para onde vai?


Na semana passada, de 5 a 8 de outubro, coincidindo com a Semana Nacional pela Vida, foi realizado em Salvador (BA) um Congresso Teológico Internacional sobre a família, patrocinado pelo Instituto João Paulo 2º para Estudos sobre o Matrimônio e a Família, ligado à Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma; o evento, promovido pela seção brasileira do mesmo instituto, em Salvador, foi hospedado pela Universidade Católica de Salvador, que comemora 50 anos de fundação.

Entre os conferencistas estavam o próprio monsenhor Livio Melina, diretor da sede romana do instituto, o vice-presidente do Pontifício Conselho para a Família, dom Jean Lafitte, e o diretor da filial brasileira do instituto, de Salvador, dom João Carlos Petrini, bispo de Camaçari. Vários estudiosos da Universidade Católica jubilar também deram sua contribuição, com abordagens sociológicas, antropológicas e psicológicas sobre questões ligadas ao tema.

Neste ano, são lembrados os 30 anos do sínodo sobre a família e da sucessiva Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Familiaris Consortio”, de João Paulo 2º, sobre “A missão da família cristã no mundo de hoje”, publicada em 22 de novembro de 1981. Esse documento teve grande repercussão e desencadeou uma nova reflexão teológica sobre o matrimônio e a família; porém, é necessário que ele seja retomado e absorvido muito mais ainda na reflexão teológica e na prática pastoral, pois conserva uma surpreendente atualidade; além disso, a abundante reflexão produzida sobre essa temática, quer pela teologia e a prática pastoral, quer pelo próprio Magistério da Igreja, oferece agora uma compreensão melhor das importantes intuições e indicações daquele documento.

De fato, os desafios apontados pela Exortação Apostólica aparecem hoje ainda mais evidentes do que há 30 anos. É comum ouvir que a família já é uma instituição “superada”, pelo menos na sua forma natural e mais evidente, formada por um casal – homem e mulher, e por filhos, inserida num círculo de parentesco consaguíneo. Há uma forte pressão cultural e de grupos ideológicos militantes para fazer valer um “novo conceito de família”, separando casamento e família, ou casamento, família e procriação, e até mesmo casamento, família e natureza sexual.

Aliás, pretende-se negar que a própria identidade sexual seja um fato de natureza, mas uma “opção” ou “orientação” de cada um, dependendo da cabeça e da vontade das pessoas. Será isso um avanço na civilização? Ou é um retorno ao caos na organização do convívio humano, fazendo prevalecer a vontade individualista e os desejos subjetivos sobre a natureza das coisas e o bem comum? Se a vontade de poder se nega a reconhecer o caminho definido pela própria natureza e pelo consenso em torno de referenciais válidos para todos, estamos no caminho que leva de volta à lei da selva.

Uma das preocupações mais destacadas pela Exortação Apostólica e pela reflexão teológica posterior foi mostrar o significado antropológico da sexualidade, do casamento e da família, elementos menos desenvolvidos na reflexão anterior. Para isso, contribuiu muito o Magistério do Beato João Paulo 2º, ele próprio preocupado em dar esse embasamento à reflexão da Igreja sobre o matrimônio e a família.

A Campanha da Fraternidade de 1994 teve um lema sugestivo: “A família, como vai?”. Hoje, a pergunta talvez deveria ser esta: a família, para onde vai? Nas atuais tendências culturais, há uma grande desorientação sobre os rumos do casamento e da família. Já no tempo de Jesus havia desrespeito ao casamento e a palavra do mestre foi esta: “no princípio, quando Deus fez homem e mulher (...) não foi assim” (cf 19,3-8).

A Igreja, cumprindo sua missão, continua a indicar o rumo para o casamento e a família, contribuindo para que a humanidade acerte em questões tão vitais. E a direção não pode ser diversa daquela que Deus inscreveu, já “no princípio”, já na natureza humana e que Cristo confirmou e elevou com a graça da redenção.

Publicado no jornal O SÃO PAULO, edição de 11/10/2011

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